sexta-feira, 8 de maio de 2009

A Casa Viva

-Entre!
-Minha nossa, que lugar estranho aqui!
-Não entendi, estranho como?
-Essa sala, por exemplo, é coisa de louco ver essas cadeiras, mesas, abajures e estantes se moverem.
-Porque estranho? Eu dou liberdade a todos aqui. Todos são iguais para mim.
-Eu nunca vi coisas tão estranhas. Aonde já se viu objetos se moverem?
-Você os está vendo agora, estão na sua frente, e porque eles não podem ser livres? Acho que no seu mundo as coisas devem ser muito chatas.
-Não acho, lá quando eu quero assistir à televisão o sofá não fica andando como um doido por aí.
-Viu como são chatas as coisas nesse seu mundo. Televisão sim é uma coisa chata, um aparelhinho quadrado que fica mostrando imagens. Não preciso disso no meu mundo, aqui tudo é verdadeiro.
-Não acho, eu passo o dia inteiro em frente à televisão e me divirto muito.
-Tudo bem então, já que você está dizendo. Minha opinião continua a mesma. Mas vamos mudar de assunto por hora. Quero saber o seu nome primeiro, afinal de contas não nos apresentamos ainda.
-Sou Nielad e moro a duas quadras daqui.
-Prazer Nielad. Chamo-me Gilfred.
-Porque eu nunca vi sua casa aqui? E olha que moro nesses arredores a um tempinho.
-A resposta é bem simples amigo. Minha casa sempre esteve aqui nesse lugar, o problema é que você não queria vê-la.
-Como assim? Todas as casas podem ser vistas, isso não é verdade.
-Essa é diferente, ela se mostra para quem quer vê-la, não é como as casas comuns que aparecem para todo mundo, esta é muito refinada, e fale baixo, pois ela pode ficar ofendida com o comentário. Sabe como é, ela é um pouco orgulhosa.
-AH, não me diga que ela também é viva e fica andando por aí.
-Nossa, estamos começando a nos entender. É isso mesmo, ela tem vida, mas não anda, como lhe disse ela só se esconde mesmo, e só se mostra para quem quer vir aqui.
-Mas eu não queria vir para cá, eu simplesmente brincava com minha bola e ela caiu no seu quintal.
-Nossa! Você entrou numa enrascada das grandes.
-Porque?
-Lá é um reino imenso, e com muitas criaturas más. São de todos os tamanhos e de todos os jeitos.
-Não acredito. E estou indo para lá agora mesmo pegar minha bola.
-Tudo bem! É só seguir em frente e abrir a porta.
-Fácil mesmo...
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-Falei para você ter cuidado, lá é um lugar perigoso.
-Socorro! Há um dragão correndo atrás de mim.
-Agora é tarde meu amiguinho, te avisei e nada posso fazer, ele tem vontade própria, não interfiro na vontade de ninguém.
-Por favor, me ajude, ele está cuspindo fogo e pegou na minha blusa, vou morrer queimado.
-Ah, não vai não amigo, pois vaso ruim não quebra fácil e além do mais a porta de saída está perto de você, é só correr e sair, o dragão não sai de minha casa, pode ficar tranqüilo.
-Obrigado... Estou conseguindo...Consegui.
-Nossa! Que menino estranho. Imagina, falar que minha casa não é real. Ele que é louco!

Fim

quarta-feira, 15 de abril de 2009

TANGERINA

Tangerina

Na frescura da fruta
Colhida do pé
Na seiva absoluta
Deito

No sentido longitudinal
Assim, atravessada
Colho a brisa do horizonte
Sinto o tremor na terra

Frescas como essa manhã
Doces como o orgasmo
A tangerina traça com seu perfil
O caminho do meu prazer


terça-feira, 24 de março de 2009

A Preocupação do Pai de Família

Alguns dizem que a palavra Odradek deriva do eslavo e com base nisso procuram demonstrar a formação dela. Outros por sua vez entendem que deriva do alemão, tendo sido apenas influenciada pelo eslavo. Mas a incerteza das duas interpretações permite concluir, sem dúvida com justiça, que nenhuma delas procede, sobretudo porque não se pode descobrir através de nenhuma um sentido para a palavra.
Naturalmente ninguém se ocuparia de estudos como esses se de fato não existisse um ser que se chama Odradek. À primeira vista ele tem o aspecto de um carretel de linha achatado e em forma de estrela, e com efeito parece também revestido de fios; de qualquer modo devem ser só pedaços de linha rebentados, velhos, atados uns aos outros, além de emaranhados e de tipo e cor dos mais diversos. Não é contudo apenas um carretel, pois do cento da estrela sai uma vare tinha e nela se encaixa depois uma outra, em ângulo reto. Com a ajuda desta última vareta de um lado e de um dos raios da estrela do outro, o conjunto é capaz de permanecer em pé como se estivesse sobre duas pernas.
Alguém poderia ficar tentado a acreditar que essa construção teria tido anteriormente alguma forma útil e que agora ela está apenas quebrada. Mas não parece ser este o caso; pelo menos não se encontra nenhum indício nesse sentido; em parte alguma podem ser vistas emendas ou rupturas assinalando algo dessa natureza; o todo na verdade se apresenta sem sentido, mas completo à sua maneira. Aliás não é possível dizer nada mais preciso a esse respeito, já que Odradek é extraordinariamente móvel e não se deixa capturar.
Ele se detém alternadamente no sótão, na escadaria, nos corredores, no vestíbulo. Às vezes fica meses sem ser visto; com certeza mudou-se então para outras casas; depois porém volta infalivelmente à nossa casa. Às vezes quando se sai pela porta e ele está inclinado sobre o corrimão logo embaixo, tem-se vontade de interpelá-lo. É natural que não se façam perguntas difíceis, mas sim que ele seja tratado - já que o seu minúsculo tamanho induz a isso - como uma criança. “Como você se chama?”, pergunta-se a ele. “Odradek”, ele responde. “E onde você mora?” “Domicílio incerto” diz e ri; mas é um riso como só se pode emitir sem pulmões. Soa talvez como o farfalhar de folhas caídas. Em geral com isso a conversa termina. Aliás mesmo essas respostas nem sempre podem ser obtidas; muitas vezes ele se conserva mudo por muito tempo como a madeira que parece ser.
Inutilmente eu me pergunto o que vai acontecer com ele. Será que pode morrer? Tudo o que morre teve antes uma espécie de meta, um tipo de atividade e nela se desgastou; não é assim com Odradek. Será então que a seu tempo ele ainda irá rolar escada abaixo diante dos pés dos meus filhos e dos filhos dos meus filhos, arrastando atrás de si os fios do carretel? Evidentemente ele não prejudica ninguém, mas a idéia de que ainda por cima ele deva me sobreviver me é quase dolorosa.
(Tradução de Modesto Carone in: Franz Kafka. Um Médico Rural. SP: Cia das Letras, 2003, p. 43-45)